A engenheira e professora Heloísa Maringoni contou para a equipe do Construmetal quais foram os desafios enfrentados para transformar o edifício num espaço de exposições na avenida mais movimentada de SP.
Não é à toa que a estrutura metálica está presente nos maiores e mais importantes projetos de retrofit no Brasil e no mundo. Por ser um material leve, resistente e de fácil adaptação a diversos tipos de uso, ele é a principal escolha dos engenheiros para transformar prédios históricos ou prolongar a vida útil de uma construção já existente.
Com o edifício Pietro Maria Bardi, anexo do Masp na Avenida Paulista, não foi diferente. A engenheira e professora Heloísa Martins Maringoni, que é sócia-diretora da Companhia de Projetos e tem vasta experiência em estruturas metálicas, foi quem ficou à frente deste imenso desafio. O prédio, que desde 2012 era usado como sede administrativa do museu, foi transformado em espaço para exposições de arte. Por conta disso, teve de ser totalmente reformulado.
Nesta entrevista, ela conta com detalhes como foi a obra, todos os percalços que a equipe enfrentou e quais as soluções encontradas para fazer deste retrofit um dos maiores cases de sucesso do uso de sistemas metálicos.
Heloísa é uma grande entusiasta do Construmetal. Ela acredita que é importante que construtores e empreendedores conheçam como e onde construir com sistemas metálicos. E que o evento é o espaço ideal para que isso aconteça.
“O Construmetal traz muitas novidades sobre o setor – novos materiais, acabamentos, novos usos, entre outras coisas, que são extremamente interessantes da gente conhecer. Traz também palestras e casos antigos e importantes, que mostram que já estamos trabalhando com estrutura metálica há muito tempo. Portanto é extremamente importante que este evento ocorra e espero que venham muitos outros!”
Equipe Construmetal: Por que o anexo do Masp teve de ser totalmente reformado?
Heloísa Maringoni: Aquele edifício, a princípio, tinha sido um prédio residencial. Depois houve uma reforma em 2012 para que se tornasse um prédio administrativo do museu. E em 2022 veio o projeto da Meta Arquitetura para transformar o prédio para que ele atendesse às necessidades do Masp como espaço expositivo. Ao passar a ser um prédio com este uso, aquela reforma feita em 2012 não servia para esta finalidade.
Equipe Construmetal: E por que a reforma de 2012 não servia?
Heloísa Maringoni: Por várias razões: uma delas porque tinha, bem no meio do prédio, um núcleo de circulação vertical que segurava aquele grande mirante lá em cima e que dividia o espaço expositivo em duas salas pequenas e dois corredores. Ou seja, não atenderia o Masp como espaço de exposições. E uma outra questão: as lajes que estavam ali foram projetadas para uma sobrecarga de uso para escritório. Nenhuma delas atendia à condição de carga de um edifício de exposições. Então tínhamos ali três questões importantes: problema de carga, problema de espaço e, em terceiro lugar, problema de fundação, com estacas em lugares não adequados ao que pretendíamos fazer no novo uso do edifício. Por conta disso, qual foi a brilhante ideia: metálica. Ao construir vigas e lajes metálicas conseguimos diminuir pela metade o peso da obra – em comparação com vigas e lajes em concreto – e ganhar crédito por metro quadrado para o peso extra das exposições.
Equipe Construmetal: Que outros desafios foram enfrentados?
Heloísa Maringoni: Precisávamos também, por conta das exposições, de pés direito mais altos. O pé direito existente era de 3,20 metros, que para escritório ou uso residencial está bom, mas para museu, não. Então veio a ideia de deixar um andar e eliminar o outro. Assim teríamos altura bem maiores. Então a gente “esticou” o prédio até a altura do mirante. Para unir estes pilares duplos, a metálica entrou novamente. Foram feitos anéis para dar resistência e engessar os pilares e para fazer o engaste das vigas metálicas que saiam deste anel e iam até a caixa de circulação vertical (que passou a ser lateral), aporticando o prédio de novo e voltando a dar a ele a rigidez necessária. Então a metálica veio, na verdade, para viabilizar uma coisa que, de outra forma, não se tornaria viável. Nós não escolhemos a metálica porque ela era legal, mas porque ela era útil, perfeita e adequada para aquilo a que se propunha o novo prédio.
Equipe Construmetal: E o prédio continuou com a mesma altura e no mesmo número de andares?
Heloísa Maringoni: Ele continuou com a mesma altura que tinha em 2012 e tem hoje nove andares e 7.821 metros quadrados. Outra característica interessante da obra é que a demolição de alguns andares foi feita simultaneamente à colocação das estruturas metálicas. Esta obra cresceu em estrutura metálica a partir do quinto andar (novo quinto andar, antigo oitavo) e foi sendo demolida do quinto andar para baixo. O projeto de reforma durou dois anos. E a obra, mais três anos. Mas ainda estamos lá fazendo o túnel de ligação entre o Masp original e o edifício Pietro Maria Bardi.
Equipe Construmetal: E como foi realizar uma obra no coração da Avenida Paulista?
Heloísa Maringoni: Nisso a metálica também entrou como solução. Porque não dá para ter canteiro de obra na Avenida Paulista. Então, neste caso, a construção industrializada se tornou extremamente funcional e necessária. As peças vinham e eram montadas sem que nada ficasse acumulado ali. O transporte de retirada e colocação de material era feito de madrugada, num período em que você não tinha o movimento da Avenida Paulista. Tudo ali tinha de ser adequado à construção levando em conta o local em que ela estava sendo feita.
Equipe Construmetal: A estrutura metálica é ideal para projetos de retrofit como o do anexo do Masp?
Heloísa Maringoni: Sim, seu uso é maravilhoso. Porque, em primeiro lugar, você vai alterar o trabalho de um prédio existente – alterar por acréscimo ou por substituição. Então vai colocar ali um material que precisa “conversar” com algo pré-existente. E que não pode demorar a dar respostas. Portanto, a grande vantagem da metálica nisso é que à medida que você a colocou ali, instalou aquilo e fez o detalhe de ligação, ela está pronta para trabalhar naquele instante. Não há necessidade de fazer fôrma, de esperar, de uma série de procedimentos que uma construção convencional (não industrializada) precisa. Então, no caso do retrofit, a metálica vem ajudar sensivelmente. Não que não se possa fazer em concreto. É possível também.
Equipe Construmetal: O que você pode dizer sobre o fato de a construção industrializada ser mais cara e, por conta disso, muitas vezes não ser adotada nas obras?
Heloísa Maringoni: Toda a construção industrializada, seja ela pré-moldado ou metálica, é mais cara porque é industrializada. O que não é, a meu ver, nenhuma justificativa ao se comparar o custo da estrutura em relação ao custo da obra inteira. A estrutura custa 20, 30% do que é a obra? Muito bem: se ela é 10% mais cara, isso representa 3% da obra. Este custo pode ser recuperado em precisão da obra, em tempo, em uma série de outras coisas.
Equipe Construmetal: Qual a sua opinião sobre o uso de materiais híbridos na construção industrializada?
Heloísa Maringoni: O que a gente defende como engenheiro estrutural, eu e os meus colegas todos, é que a melhor coisa é o uso de materiais híbridos. Pegue o melhor de cada material e combine. Não tem esse purismo “ah, ou isso ou aquilo.” Não. É legal essa mistura. Você ir adequando cada material para seu melhor uso, o mais eficaz.
Equipe Construmetal: Qual a importância do evento Construmetal para o setor da construção civil?
Heloísa Maringoni: Há muitos anos, desde que eu tinha cabelos que ainda não eram brancos, eu tento convencer o mercado da construção de que trabalhar com sistemas metálicos é legal. Dentro deste contexto, um evento como o Construmetal é um ótimo espaço para dar ênfase a isso. Ele é importante para que construtores e empreendedores da construção civil se familiarizem com este material. Porque é exatamente familiarizar-se com o material, conhecer o material, que vai fazer com que se queira trabalhar com isso, que se adote nas obras. O Construmetal traz muitas novidades sobre o setor – novos materiais, acabamentos, novos usos, entre outras coisas, que que são extremamente interessantes da gente conhecer. Também traz palestras e casos antigos e importantes, que mostram que já trabalhamos com estrutura metálica há muito tempo. Então acho extremamente importante que este evento ocorra e espero que venham muitos outros!
Para mais informações, inscrições e detalhes da programação, acesse:
www.congressoconstrumetal.com.br